Apuração
Metodologia · modelo governo-1.0

Quem vota com o governo, e como medimos

Para cada deputado e senador, em cada governo desde 2011, estimamos a chance de votar com o governo numa votação disputada. Com essa chance, separamos a base, os votos em jogo e a oposição, e contamos quantos faltam para a maioria e para uma emenda à Constituição.

É uma estimativa sobre o comportamento passado nas votações nominais, com faixa de incerteza. Não é um rótulo nem uma previsão de como alguém vai votar amanhã.

1. Que votações contam

Usamos as votações nominais do plenário da Câmara e do Senado em que o governo orientou o voto: Sim, Não ou Obstrução. Votações em que o governo liberou a bancada ficam de fora. Na Câmara, a orientação é a da bancada “Governo” (ou do líder do governo). No Senado, a orientação de bancada só existe a partir de outubro de 2018; antes, usamos o voto do líder do governo no Senado, nas datas em que ocupou o cargo.

Contam só as votações disputadas: aquelas em que o lado perdedor teve pelo menos 10% dos votos Sim, Não e Obstrução. Votações quase unânimes não dizem nada sobre quem está em jogo e inflariam todo mundo. Entre as disputadas, as mais apertadas pesam mais: uma votação com 30% ou mais do lado perdedor pesa 1; uma de 90 a 10 pesa um terço.

Votar com o governo é votar como ele orientou (Obstrução conta como Não). Votar contra, abster-se ou votar Sim quando ele pediu Não contam como não votar com ele: nenhum desses dá ao governo o voto de que ele precisa. Ausências não contam para nenhum lado.

2. O modelo

Cada parlamentar tem uma chance p de votar com o governo numa votação disputada. Observamos quantas vezes votou com ele (com os pesos acima) em quantas votou. Quem votou poucas vezes daria uma estimativa barulhenta, então partimos do que se sabe do seu partido: um modelo beta-binomial hierárquico. A chance de cada membro de um partido vem de uma distribuição Beta própria do partido, ajustada por máxima verossimilhança marginal (Bayes empírico); partidos com menos de 3 parlamentares usam a da casa inteira.

O resultado para cada pessoa é uma distribuição Beta: o centro é a chance publicada, e a faixa mostrada vai do 10º ao 90º percentil. Com muitas votações, os votos da própria pessoa dominam; com poucas, a estimativa fica perto da do partido e a faixa, larga.

Os três grupos

As cadeiras e as linhas

O gráfico mostra as cadeiras no fim de cada período: os 513 deputados (ou 81 senadores) que mais votaram nos últimos 90 dias de votações disputadas. Suplentes que passaram pouco tempo no cargo aparecem só na tabela. As linhas marcam os votos necessários com todas as cadeiras ocupadas: maioria absoluta (257 na Câmara, 41 no Senado), exigida para leis complementares, e três quintos (308 e 49), exigidos para emendas à Constituição em cada um dos dois turnos. Uma lei ordinária precisa só da maioria dos presentes, com pelo menos metade da casa no plenário.

3. O teste com votações que o modelo não viu

Em cada período, ajustamos o modelo com os primeiros 75% das votações disputadas e prevemos o voto de cada parlamentar nos 25% finais. Comparamos com duas réguas mais simples: a taxa do partido e uma taxa única para todos. O modelo foi melhor que a taxa do partido em 9 dos 9 períodos.

Na Câmara do governo Lula, acertou o lado de 79% dos votos, contra 73% usando só o partido.

CasaGovernoVotos previstosPerda log. modelopartidoAcerto modelopartido
CâmaraDilma 112.2900,6390,64164%62%
CâmaraDilma 216.3890,4840,52079%76%
CâmaraTemer17.9730,3700,39986%84%
CâmaraBolsonaro104.4970,3650,38487%87%
CâmaraLula 370.8300,4650,51479%73%
SenadoDilma 11.3050,7910,80264%63%
SenadoTemer5760,4780,56780%72%
SenadoBolsonaro2.4070,6320,64868%64%
SenadoLula 31.3690,5690,60375%72%

Onde o modelo não ganhou, dizemos: no Senado de Dilma no 1º mandato ele foi pior até que a taxa única, com só 22 votações para testar. Prever o placar de uma votação é outra coisa: cada votação tem a sua política, e o placar do governo varia muito de uma para outra mesmo com os mesmos parlamentares. Por isso mostramos o placar como ele aconteceu, não uma previsão dele.

Perda logarítmica e escore de Brier: quanto menor, melhor. Acerto: a chance prevista ficou do lado certo de 50%. O Senado de Dilma no 2º mandato não tem votações suficientes.

4. Quando o modelo diz 70%, acontece 70%?

Na Câmara do governo Lula, separamos os votos previstos pela chance que o modelo deu e contamos quantos de fato foram com o governo. Cada linha tem 20 quadrados, um para cada 5% dos votos que foram com o governo.

0–10%8% de 6.997 votos
10–20%12% de 6.975 votos
20–30%18% de 1.467 votos
30–40%24% de 3.291 votos
40–50%35% de 1.385 votos
50–60%45% de 2.555 votos
60–70%57% de 2.678 votos
70–80%64% de 11.666 votos
80–90%75% de 17.294 votos
90–100%96% de 16.522 votos

Votos dos últimos 25% das votações disputadas do período, que o modelo não viu.

5. O que cada governo aprovou

Votações vencidas: entre as votações nominais com orientação do governo, a parcela em que o resultado oficial (aprovado ou rejeitado) saiu como o governo pediu. Mostramos as disputadas; a tabela tem também todas.

Medidas provisórias: a lista do Senado (processo legislativo, sigla MPV), uma linha por MP, com a deliberação final: aprovada como projeto de lei de conversão ou na íntegra (virou lei), perda de eficácia (caducou sem votação), rejeitada, revogada pelo próprio governo ou ainda em tramitação. A MP conta no governo que a editou.

Projetos do Executivo: projetos de lei, de lei complementar e propostas de emenda à Constituição cujo autor, nos dados da Câmara, é o Poder Executivo, contados pela data de apresentação. A situação é a última registrada pela Câmara: “Transformado em Norma Jurídica” é lei; arquivado, retirado, devolvido, rejeitado, prejudicado ou vetado por inteiro é “parou”; o resto ainda tramita. Projetos de lei do Congresso sobre orçamento (PLN) e mensagens ficam de fora.

6. Limites

7. Fontes

A posição esquerda–direita pelo voto tem a sua própria metodologia; o apoio ao governo é medido à parte e não entra nela. Os gráficos estão em Governo e Congresso.