Apuração
Metodologia

Alianças, coligações e a bancada de cada campanha à prefeitura

As páginas de alianças mostram quem se coligou com quem para prefeito e quais candidatos a vereador receberam ajuda de cada campanha a prefeito. Aqui está de onde vêm esses números, como foram ligados, a estatística que fazemos com eles e o que eles não permitem concluir.

1. O que é a bancada de cada campanha à prefeitura

Na prestação de contas, cada candidato a vereador declara o que recebeu e de quem. Uma das origens possíveis é “recursos de outros candidatos”. Quando o doador é a campanha de uma candidatura a prefeito da mesma cidade (o titular ou o vice, que concorrem com o mesmo número), o vereador entra na bancada daquela chapa.

Se mais de uma chapa ajudou o mesmo candidato, ele fica na bancada da que deu mais, em reais; as outras ficam registradas e aparecem na página da cidade. É uma aliança naquela campanha, não uma afirmação sobre a ideologia de ninguém. Um vereador pode receber ajuda de um prefeito e votar contra ele no mandato.

A maior parte dessa ajuda não é dinheiro: são santinhos, adesivos e outros materiais que a campanha a prefeito produz e divide com os aliados, declarados como “recursos estimáveis”, pelo valor que a própria campanha atribui.

Total que as campanhas a prefeito declararam ter passado a candidatos a vereador, no Brasil, em reais da época (sem correção pela inflação). Barra escura: a parte em dinheiro; o resto é material estimado.

2. De onde vêm os dados

Tudo vem dos dados abertos do TSE:

3. Como ligamos quem deu a quem recebeu

De 2020 em diante, a receita traz o cargo e o número do candidato doador, e basta procurar a chapa a prefeito com esse número na mesma cidade. Em 2012 e 2016 não há essas colunas: o doador aparece pelo nome da conta de campanha na Receita Federal, no formato “ELEICAO 2016 nome completo PREFEITO”. Ligamos esse nome, sem acentos e em maiúsculas, ao nome completo dos candidatos a prefeito e a vice da mesma cidade.

Uma linha que diz vir de uma candidatura a prefeito mas não encontra nenhuma chapa na cidade fica de fora. A tabela mostra quantas foram, e quantos candidatos ajudados têm página própria neste site.

Cobertura da ligação entre doador e candidato, por ano
AnoLinhas ligadasSem ligaçãoAjudados com páginaEleitos com página
2012509.77614.393 (3%)34%100%
2016800.9338.845 (1%)32%100%
2020696.1813.598 (1%)30%100%
2024651.4895.911 (1%)36%100%

O resultado, no Brasil: em 2024, 186.401 dos 417.015 candidatos a vereador (45%) receberam ajuda de uma campanha a prefeito, em 4.560 das 5.569 cidades. Entre os 58.162 eleitos, 27.829 (48%) estavam numa bancada; em 2012, eram 38%.

2012
2016
2020
2024
na bancada de quem venceuna bancada de quem perdeusem bancadaUm quadrado para cada 5% dos vereadores eleitos no Brasil.
ver em tabela
Candidatos a vereador e bancadas, Brasil, por ano
AnoCandidatosAjudadosEleitosEleitos com bancadaNa de quem venceu
2012420.537158.23957.41922.087 (38%)12.003
2016443.764231.93857.84229.760 (51%)16.313
2020504.187208.62158.10525.161 (43%)14.057
2024417.015186.40158.16227.829 (48%)18.472

4. Do partido, da coligação ou de fora dela

Cada vereador ajudado é classificado pela relação com a chapa que mais lhe deu: do mesmo partido da chapa a prefeito (ou da mesma federação, de 2022 em diante), de um partido da coligação da chapa a prefeito, ou de fora da coligação. Partidos que mudaram de nome contam como o mesmo partido.

2012391 de fora
2016412 de fora
2020238 de fora
2024266 de fora
Vereadores eleitos com bancada, no Brasil: escuro, do partido da chapa a prefeito; claro, de outro partido da coligação; âmbar, de fora da coligação.
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Vereadores eleitos com bancada, pela relação com o partido da chapa a prefeito
AnoMesmo partidoColigaçãoDe foraMais de uma chapa
20128.50313.19339174
201611.34418.00441270
202015.0629.86123834
202415.17412.38926627

“De fora” é raro, mas existe: é o candidato de um partido que tinha a própria candidatura a prefeito, ou nenhum, e ainda assim recebeu material de outra chapa.

5. Coligações, federações e parceiros

Uma coligação é o conjunto de partidos que dividem o mesmo código de coligação do TSE (SQ_COLIGACAO) numa disputa. Um partido que concorreu sozinho é uma coligação de um. Entram só os registros que o TSE aceitou (deferidos ou regulares), do 1º turno, em eleições ordinárias.

Desde 2022 os partidos podem se unir em federações, que valem por quatro anos e funcionam como um só partido. Na matriz de parceiros, uma federação conta como uma unidade. Partidos que mudaram de nome aparecem com o nome de hoje (PMDB como MDB, PR como PL); fusões não são juntadas: o União Brasil não herda o histórico do DEM nem do PSL.

A matriz de parceiros lê-se por linha. A célula da linha A e coluna B é o número de cidades em que A e B estiveram na mesma coligação para prefeito, dividido pelo número de cidades em que A esteve numa disputa para prefeito. A diagonal é a parte das cidades em que A concorreu sozinho. Por isso a matriz não é simétrica: um partido pequeno pode estar quase sempre com um grande sem que o contrário aconteça.

Desde 2020 as coligações para vereador são proibidas. A aliança para a Câmara só aparece, então, por dois caminhos: a coligação para prefeito e a ajuda de campanha que este estudo mede.

6. A estatística

a. Quem se elege, por bancada

Separamos os candidatos a vereador em três grupos: na bancada de quem venceu para prefeito, na bancada de um candidato que perdeu, e sem bancada. A taxa de eleição é eleitos dividido por candidatos em cada grupo, somando o Brasil todo.

0%5%10%15%20%
2012
2016
2020
2024
bancada de quem venceubancada de quem perdeusem bancadaParte dos candidatos a vereador de cada grupo que se elegeu, Brasil.
ver em tabela
Taxa de eleição de candidatos a vereador, por bancada
AnoBancada de quem venceuBancada de quem perdeuSem bancadaRazão bruta
201216% (12.003 de 76.209)12% (10.084 de 82.030)13% (35.332 de 262.298)1,20
201615% (16.313 de 106.981)11% (13.447 de 124.957)13% (28.082 de 211.826)1,18
202015% (14.057 de 91.057)9% (11.104 de 117.564)11% (32.944 de 295.566)1,46
202419% (18.472 de 96.374)10% (9.357 de 90.027)13% (30.333 de 230.614)1,57

Razão bruta: a chance (odds) de eleição na bancada de quem venceu dividida pela chance sem bancada, sem separar por cidade.

b. Comparando dentro de cada cidade

Somar o Brasil mistura cidades com 3 candidatos por vaga e cidades com 30. Para comparar candidatos que disputaram as mesmas vagas, montamos em cada cidade uma tabela 2×2 (na bancada ou não; eleito ou não) e as combinamos pela razão de chances de Mantel–Haenszel: a soma, entre cidades, de a·d/n dividida pela soma de b·c/n. O intervalo de 95% usa a variância de Robins, Breslow e Greenland, que vale tanto com poucas cidades grandes quanto com muitas pequenas.

Uma razão de 2 quer dizer que, na mesma cidade, a chance de se eleger de quem estava na bancada era o dobro da de quem não estava. Ela é maior que a razão bruta porque a taxa de eleição varia muito de cidade para cidade e as bancadas não se distribuem por igual entre elas: comparar dentro da cidade remove essa mistura.

0,7511,52
2012
2016
2020
2024
bancada de quem venceubancada de quem perdeuRazão de chances de Mantel–Haenszel contra os candidatos sem bancada, estratificada por cidade, com intervalo de 95%. Escala logarítmica; a linha cinza é 1, nenhuma diferença.
ver em tabela
Razões de chances de Mantel–Haenszel com intervalo de 95%
AnoQuem venceu × sem bancadaQuem perdeu × sem bancada
20122,09 (2,01 a 2,16)1,44 (1,39 a 1,49)
20161,78 (1,72 a 1,84)1,12 (1,08 a 1,16)
20201,86 (1,79 a 1,92)0,96 (0,93 a 0,99)
20242,16 (2,09 a 2,24)0,82 (0,80 a 0,85)

Em todos os anos, estar na bancada de quem venceu andou junto com mais chance de se eleger. Na bancada de quem perdeu, a razão ficou acima de 1 em 2012 e 2016, e abaixo de 1 em 2020 e 2024.

c. O efeito arrasto

Em cada cidade, medimos a parte das cadeiras da Câmara que ficou com os partidos da coligação de quem venceu para prefeito, e a comparamos com a votação do vencedor no 1º turno (parte dos votos válidos dados a prefeito). Cidades com candidato único a prefeito ficam de fora, porque não dizem nada sobre arrasto. Ajustamos uma reta por mínimos quadrados entre cidades, com erros-padrão robustos à heterocedasticidade (HC1) para o intervalo de 95%.

Uma inclinação perto de 1 quer dizer que cada ponto percentual a mais de votos para quem venceu a prefeitura vem acompanhado, em média, de cerca de um ponto percentual a mais de cadeiras para a coligação dele.

0,60,81
2012
2016
2020
2024
Inclinação da reta (cadeiras da coligação do vencedor contra a votação dele), com intervalo de 95% (HC1). A linha cinza é 1.
ver em tabela
Efeito arrasto: regressão entre cidades
AnoInclinaçãoIntervalo de 95%R²Cidades
20120,580,52 a 0,640,155.454
20160,900,85 a 0,960,265.317
20201,010,97 a 1,050,355.322
20240,960,92 a 1,000,365.278

O R² mostra quanto da variação entre cidades a votação de quem venceu explica sozinha: entre 15% e 36%, conforme o ano. O resto depende do tamanho da coligação, do número de partidos e de cada cidade. Até 2016 ainda havia coligações para vereador, que podiam juntar na Câmara partidos de chapas diferentes para prefeito.

7. O que estes números não dizem

8. Como reproduzir

Os scripts estão no repositório, em scripts/alliances/, e usam só Python 3. Baixe os arquivos do TSE em https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/: prestacao_contas/<arquivo>.zip (os nomes da seção 2), consulta_cand/consulta_cand_<ano>.zip (salvo como cand_<ano>.zip) e consulta_coligacao/consulta_coligacao_<ano>.zip (salvo como col_<ano>.zip). Baixe um arquivo por vez: o servidor do TSE bloqueia rajadas de pedidos.

python3 scripts/alliances/coalitions.py <pasta dos zips> data
python3 scripts/alliances/camps.py <pasta dos zips> data
python3 scripts/alliances/stats.py data

A ordem importa: as bancadas usam as coligações, e a estatística usa as bancadas e os resultados de data/municipal. Os arquivos gerados ficam em data/alliances/.

Para a classificação dos partidos da esquerda à direita, veja a metodologia das eleições. Para ver as alianças de um estado ou cidade, comece em Alianças.