Alianças, coligações e a bancada de cada campanha à prefeitura
As páginas de alianças mostram quem se coligou com quem para prefeito e quais candidatos a vereador receberam ajuda de cada campanha a prefeito. Aqui está de onde vêm esses números, como foram ligados, a estatística que fazemos com eles e o que eles não permitem concluir.
1. O que é a bancada de cada campanha à prefeitura
Na prestação de contas, cada candidato a vereador declara o que recebeu e de quem. Uma das origens possíveis é “recursos de outros candidatos”. Quando o doador é a campanha de uma candidatura a prefeito da mesma cidade (o titular ou o vice, que concorrem com o mesmo número), o vereador entra na bancada daquela chapa.
Se mais de uma chapa ajudou o mesmo candidato, ele fica na bancada da que deu mais, em reais; as outras ficam registradas e aparecem na página da cidade. É uma aliança naquela campanha, não uma afirmação sobre a ideologia de ninguém. Um vereador pode receber ajuda de um prefeito e votar contra ele no mandato.
A maior parte dessa ajuda não é dinheiro: são santinhos, adesivos e outros materiais que a campanha a prefeito produz e divide com os aliados, declarados como “recursos estimáveis”, pelo valor que a própria campanha atribui.
- 2012R$ 144,8 mi17% em dinheiro
- 2016R$ 143,2 mi11% em dinheiro
- 2020R$ 171,2 mi25% em dinheiro
- 2024R$ 244,5 mi32% em dinheiro
Total que as campanhas a prefeito declararam ter passado a candidatos a vereador, no Brasil, em reais da época (sem correção pela inflação). Barra escura: a parte em dinheiro; o resto é material estimado.
2. De onde vêm os dados
Tudo vem dos dados abertos do TSE:
- Prestação de contas, as receitas declaradas por cada candidato: 2012 em
prestacao_final_2012; 2016 emprestacao_contas_final_2016; 2020 emprestacao_de_contas_eleitorais_candidatos_2020; 2024 emprestacao_de_contas_eleitorais_candidatos_2024. - Candidatos (
consulta_cand): quem concorreu a vereador, prefeito e vice, com que número e partido, e quem foi eleito (eleito, eleito por quociente partidário ou por média). - Coligações (
consulta_coligacao, de 2002 a 2026): os partidos de cada coligação em cada disputa. - Pessoas: a base de pessoas deste site, montada com os mesmos arquivos de candidatos, que dá a cada candidato um identificador e uma página.
3. Como ligamos quem deu a quem recebeu
De 2020 em diante, a receita traz o cargo e o número do candidato doador, e basta procurar a chapa a prefeito com esse número na mesma cidade. Em 2012 e 2016 não há essas colunas: o doador aparece pelo nome da conta de campanha na Receita Federal, no formato “ELEICAO 2016 nome completo PREFEITO”. Ligamos esse nome, sem acentos e em maiúsculas, ao nome completo dos candidatos a prefeito e a vice da mesma cidade.
Uma linha que diz vir de uma candidatura a prefeito mas não encontra nenhuma chapa na cidade fica de fora. A tabela mostra quantas foram, e quantos candidatos ajudados têm página própria neste site.
| Ano | Linhas ligadas | Sem ligação | Ajudados com página | Eleitos com página |
|---|---|---|---|---|
| 2012 | 509.776 | 14.393 (3%) | 34% | 100% |
| 2016 | 800.933 | 8.845 (1%) | 32% | 100% |
| 2020 | 696.181 | 3.598 (1%) | 30% | 100% |
| 2024 | 651.489 | 5.911 (1%) | 36% | 100% |
O resultado, no Brasil: em 2024, 186.401 dos 417.015 candidatos a vereador (45%) receberam ajuda de uma campanha a prefeito, em 4.560 das 5.569 cidades. Entre os 58.162 eleitos, 27.829 (48%) estavam numa bancada; em 2012, eram 38%.
ver em tabela
| Ano | Candidatos | Ajudados | Eleitos | Eleitos com bancada | Na de quem venceu |
|---|---|---|---|---|---|
| 2012 | 420.537 | 158.239 | 57.419 | 22.087 (38%) | 12.003 |
| 2016 | 443.764 | 231.938 | 57.842 | 29.760 (51%) | 16.313 |
| 2020 | 504.187 | 208.621 | 58.105 | 25.161 (43%) | 14.057 |
| 2024 | 417.015 | 186.401 | 58.162 | 27.829 (48%) | 18.472 |
4. Do partido, da coligação ou de fora dela
Cada vereador ajudado é classificado pela relação com a chapa que mais lhe deu: do mesmo partido da chapa a prefeito (ou da mesma federação, de 2022 em diante), de um partido da coligação da chapa a prefeito, ou de fora da coligação. Partidos que mudaram de nome contam como o mesmo partido.
ver em tabela
| Ano | Mesmo partido | Coligação | De fora | Mais de uma chapa |
|---|---|---|---|---|
| 2012 | 8.503 | 13.193 | 391 | 74 |
| 2016 | 11.344 | 18.004 | 412 | 70 |
| 2020 | 15.062 | 9.861 | 238 | 34 |
| 2024 | 15.174 | 12.389 | 266 | 27 |
“De fora” é raro, mas existe: é o candidato de um partido que tinha a própria candidatura a prefeito, ou nenhum, e ainda assim recebeu material de outra chapa.
5. Coligações, federações e parceiros
Uma coligação é o conjunto de partidos que dividem o mesmo código de coligação do TSE (SQ_COLIGACAO) numa disputa. Um partido que concorreu sozinho é uma coligação de um. Entram só os registros que o TSE aceitou (deferidos ou regulares), do 1º turno, em eleições ordinárias.
Desde 2022 os partidos podem se unir em federações, que valem por quatro anos e funcionam como um só partido. Na matriz de parceiros, uma federação conta como uma unidade. Partidos que mudaram de nome aparecem com o nome de hoje (PMDB como MDB, PR como PL); fusões não são juntadas: o União Brasil não herda o histórico do DEM nem do PSL.
A matriz de parceiros lê-se por linha. A célula da linha A e coluna B é o número de cidades em que A e B estiveram na mesma coligação para prefeito, dividido pelo número de cidades em que A esteve numa disputa para prefeito. A diagonal é a parte das cidades em que A concorreu sozinho. Por isso a matriz não é simétrica: um partido pequeno pode estar quase sempre com um grande sem que o contrário aconteça.
Desde 2020 as coligações para vereador são proibidas. A aliança para a Câmara só aparece, então, por dois caminhos: a coligação para prefeito e a ajuda de campanha que este estudo mede.
6. A estatística
a. Quem se elege, por bancada
Separamos os candidatos a vereador em três grupos: na bancada de quem venceu para prefeito, na bancada de um candidato que perdeu, e sem bancada. A taxa de eleição é eleitos dividido por candidatos em cada grupo, somando o Brasil todo.
ver em tabela
| Ano | Bancada de quem venceu | Bancada de quem perdeu | Sem bancada | Razão bruta |
|---|---|---|---|---|
| 2012 | 16% (12.003 de 76.209) | 12% (10.084 de 82.030) | 13% (35.332 de 262.298) | 1,20 |
| 2016 | 15% (16.313 de 106.981) | 11% (13.447 de 124.957) | 13% (28.082 de 211.826) | 1,18 |
| 2020 | 15% (14.057 de 91.057) | 9% (11.104 de 117.564) | 11% (32.944 de 295.566) | 1,46 |
| 2024 | 19% (18.472 de 96.374) | 10% (9.357 de 90.027) | 13% (30.333 de 230.614) | 1,57 |
Razão bruta: a chance (odds) de eleição na bancada de quem venceu dividida pela chance sem bancada, sem separar por cidade.
b. Comparando dentro de cada cidade
Somar o Brasil mistura cidades com 3 candidatos por vaga e cidades com 30. Para comparar candidatos que disputaram as mesmas vagas, montamos em cada cidade uma tabela 2×2 (na bancada ou não; eleito ou não) e as combinamos pela razão de chances de Mantel–Haenszel: a soma, entre cidades, de a·d/n dividida pela soma de b·c/n. O intervalo de 95% usa a variância de Robins, Breslow e Greenland, que vale tanto com poucas cidades grandes quanto com muitas pequenas.
Uma razão de 2 quer dizer que, na mesma cidade, a chance de se eleger de quem estava na bancada era o dobro da de quem não estava. Ela é maior que a razão bruta porque a taxa de eleição varia muito de cidade para cidade e as bancadas não se distribuem por igual entre elas: comparar dentro da cidade remove essa mistura.
ver em tabela
| Ano | Quem venceu × sem bancada | Quem perdeu × sem bancada |
|---|---|---|
| 2012 | 2,09 (2,01 a 2,16) | 1,44 (1,39 a 1,49) |
| 2016 | 1,78 (1,72 a 1,84) | 1,12 (1,08 a 1,16) |
| 2020 | 1,86 (1,79 a 1,92) | 0,96 (0,93 a 0,99) |
| 2024 | 2,16 (2,09 a 2,24) | 0,82 (0,80 a 0,85) |
Em todos os anos, estar na bancada de quem venceu andou junto com mais chance de se eleger. Na bancada de quem perdeu, a razão ficou acima de 1 em 2012 e 2016, e abaixo de 1 em 2020 e 2024.
c. O efeito arrasto
Em cada cidade, medimos a parte das cadeiras da Câmara que ficou com os partidos da coligação de quem venceu para prefeito, e a comparamos com a votação do vencedor no 1º turno (parte dos votos válidos dados a prefeito). Cidades com candidato único a prefeito ficam de fora, porque não dizem nada sobre arrasto. Ajustamos uma reta por mínimos quadrados entre cidades, com erros-padrão robustos à heterocedasticidade (HC1) para o intervalo de 95%.
Uma inclinação perto de 1 quer dizer que cada ponto percentual a mais de votos para quem venceu a prefeitura vem acompanhado, em média, de cerca de um ponto percentual a mais de cadeiras para a coligação dele.
ver em tabela
| Ano | Inclinação | Intervalo de 95% | R² | Cidades |
|---|---|---|---|---|
| 2012 | 0,58 | 0,52 a 0,64 | 0,15 | 5.454 |
| 2016 | 0,90 | 0,85 a 0,96 | 0,26 | 5.317 |
| 2020 | 1,01 | 0,97 a 1,05 | 0,35 | 5.322 |
| 2024 | 0,96 | 0,92 a 1,00 | 0,36 | 5.278 |
O R² mostra quanto da variação entre cidades a votação de quem venceu explica sozinha: entre 15% e 36%, conforme o ano. O resto depende do tamanho da coligação, do número de partidos e de cada cidade. Até 2016 ainda havia coligações para vereador, que podiam juntar na Câmara partidos de chapas diferentes para prefeito.
7. O que estes números não dizem
- Não é causa. As campanhas a prefeito escolhem a quem ajudar, e tendem a ajudar quem já tem chance de se eleger. A razão de chances descreve essa associação; não mede quanto a ajuda fez alguém ganhar.
- É o que foi declarado. As receitas são declaradas pelos próprios candidatos e conferidas depois pela Justiça Eleitoral. Ajuda não declarada não aparece.
- Reais da época. Os valores são nominais, sem correção pela inflação; comparar 2012 com 2024 em reais exige cuidado.
- Material tem preço estimado. Santinhos e adesivos são avaliados pela própria campanha que os produziu.
- Titular ou vice. Uma chapa pode ter repassado pela conta do vice. Juntamos as duas contas sob o número da chapa e o nome do candidato a prefeito.
- Uma bancada por vereador. Quem recebeu de mais de uma chapa fica na da que deu mais; as outras ficam registradas, mas não entram nas contas por bancada.
- Só campanhas de candidatos. Em 2012 a mesma origem mistura candidatos e comitês. Só entram as linhas cujo doador é a campanha de uma candidatura a prefeito; repasses de comitês e diretórios de partido ficam de fora.
- Começa em 2012. Antes disso as receitas detalhadas não identificam o doador de forma comparável, então não há bancadas antes de 2012. As coligações vão de 2002 a 2026.
- Linhas sem ligação. As que não encontram chapa na cidade (nome escrito de outro jeito, número errado) ficam de fora; a seção 3 mostra quantas.
- Nomes iguais. Os vereadores são identificados pelo registro de candidatura, não pelo nome; a página de cada pessoa vem da base de pessoas, que separa homônimos.
- Intervalos estreitos não são certeza. Eles tratam cada candidato como independente; numa cidade, as vagas são fixas e a eleição de um tira a de outro.
- Doadores pessoas físicas nunca aparecem pelo nome: este estudo só usa repasses entre campanhas de candidatos.
8. Como reproduzir
Os scripts estão no repositório, em scripts/alliances/, e usam só Python 3. Baixe os arquivos do TSE em https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/: prestacao_contas/<arquivo>.zip (os nomes da seção 2), consulta_cand/consulta_cand_<ano>.zip (salvo como cand_<ano>.zip) e consulta_coligacao/consulta_coligacao_<ano>.zip (salvo como col_<ano>.zip). Baixe um arquivo por vez: o servidor do TSE bloqueia rajadas de pedidos.
python3 scripts/alliances/coalitions.py <pasta dos zips> data python3 scripts/alliances/camps.py <pasta dos zips> data python3 scripts/alliances/stats.py data
A ordem importa: as bancadas usam as coligações, e a estatística usa as bancadas e os resultados de data/municipal. Os arquivos gerados ficam em data/alliances/.
Para a classificação dos partidos da esquerda à direita, veja a metodologia das eleições. Para ver as alianças de um estado ou cidade, comece em Alianças.