Apuração
Metodologia

Perfil e voto, urna por urna

As páginas das cidades comparam o voto do 2º turno de 2026 em cada urna com o perfil de quem está inscrito nela: escolaridade, idade e sexo. Aqui estão os dados, os modelos, o problema de tirar conclusões sobre pessoas a partir de urnas, e quanto os números erram onde dá para medir.

1. Os dados e como se juntam

Tudo vem dos dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele):

A unidade é a urna: uma seção principal mais as seções agregadas a ela, que votam na mesma máquina. O perfil das seções agregadas é somado ao da principal antes de juntar com o resultado. Das 497.897 urnas, 1.241 ficam de fora: sem perfil, sem voto válido, ou com o retrato de julho diferente do eleitorado do dia da eleição em mais de 20% (seções criadas ou fundidas depois). Ficam 496.656 urnas em 5.571 cidades, com 99,8% do eleitorado.

2. O que cada traço mede

Cada traço é uma fração dos eleitores inscritos na urna, sobre o total do perfil da urna:

Os resultados: a parcela de Lula nos votos válidos (Lula ÷ (Lula + Flavio)) e o comparecimento (quem votou ÷ inscritos). Cor ou raça fica de fora: só quem atualizou o cadastro desde 2023 tem essa informação, e a maioria das urnas tem mais eleitores sem ela do que com ela. A escolaridade é a declarada no alistamento e muitas vezes não é atualizada depois.

3. Comparar urnas: três níveis, três respostas

A mesma pergunta, “onde há mais eleitores com diploma, Lula vai melhor ou pior?”, dá respostas diferentes conforme o que se compara. Usamos regressões ponderadas (mínimos quadrados, peso = votos válidos da urna; no comparecimento, peso = inscritos) em três níveis:

todas as urnas:     yᵢ = a + b·xᵢ + eᵢ
dentro da cidade:   yᵢ = a_cidade + b·xᵢ + eᵢ     (um intercepto por cidade)
entre cidades:      Y_c = a + b·X_c + e_c          (Y, X somados por cidade)

yᵢ = parcela de Lula nos votos válidos da urna i;  xᵢ = fração do traço entre os inscritos

Os erros-padrão são robustos e agrupados por cidade (CR1), porque urnas da mesma cidade não são independentes; os intervalos são de 95%. Também ajustamos os cinco traços juntos (efeitos parciais), com resultados no arquivo de dados.

Dentro da cidade Todas as urnas juntas Entre cidades
−30,00+30,0 pts
Quanto Lula muda, em pontos, a cada 10 pontos a mais do traço, cada traço sozinho. Intervalos de 95% com erros-padrão agrupados por cidade.

Dentro das cidades, a cada 10 pontos a mais de inscritos com superior completo, Lula varia −2,8 pontos (−3,5 a −2,2). Entre cidades, −10,7 (−13,3 a −8,1). Juntando todas as urnas sem separar cidades, −5,0. Para 60 anos ou mais: −0,5 dentro, −8,2 entre cidades.

A lição é sobre o nível de agregação. A comparação entre cidades mistura o traço com tudo o que muda de uma região para outra (renda, religião, história do voto no Nordeste e no Sul). Dentro da mesma cidade essas diferenças ficam constantes, então a comparação é mais justa, mas ainda é entre bairros, não entre pessoas. Nenhuma das três é a resposta para “como vota quem tem diploma”.

Dentro da cidade Todas as urnas juntas Entre cidades
−10,00+10,0 pts
Quanto o comparecimento muda, em pontos, a cada 10 pontos a mais do traço, cada traço sozinho. Intervalos de 95% com erros-padrão agrupados por cidade.

4. Cada cidade: diferenças e intervalos

Cidades com pelo menos 30 urnas em 8 locais de votação (2.540 de 5.571) têm sua própria análise. Para cada traço:

Os intervalos de 95% vêm de 200 reamostragens (bootstrap) dos locais de votação, não das urnas: urnas da mesma escola têm eleitores do mesmo bairro e erram juntas. Quando o intervalo da diferença cruza o zero, a página diz “sem diferença clara” e pinta o quadrado de cinza. A faixa cinza de cada linha mostra a metade central das cidades do Brasil (do 25º ao 75º percentil).

Com 2.540 cidades e cinco traços, há 12.700 intervalos. Se nada estivesse relacionado com nada, cerca de 5% deles ainda excluiriam o zero por acaso. Excluem 47%. Por isso uma diferença isolada numa cidade pequena merece cautela.

5. Como votaram os grupos: limites e estimativa

Saber que urnas com mais diplomados votaram mais em Lula não diz quantos diplomados votaram em Lula. Tirar conclusões sobre pessoas a partir de agregados é o problema da inferência ecológica: o mesmo resultado de urna é compatível com muitas combinações. Por isso começamos pelo que é certo.

Os limites (Duncan e Davis, 1953)

Numa urna com n inscritos, onde uma fração x é do grupo e Lula teve uma fração t dos inscritos (t = votos de Lula ÷ inscritos; usamos os inscritos porque o perfil é deles e a abstenção muda de grupo para grupo), a fração β do grupo que votou em Lula está necessariamente entre:

β ≥ max(0, (t − (1 − x)) / x)
β ≤ min(1, t / x)

Somando as urnas, com peso pelo tamanho do grupo em cada uma, temos os limites da cidade e do país. Eles não dependem de hipótese nenhuma. Mas um grupo pequeno, como os diplomados na maioria das urnas, deixa limites largos: com x = 10% e t = 35%, β pode ser qualquer valor de 0 a 100%.

0%
das cidades têm limites mais estreitos que 50 pontos para o voto em Lula dos diplomados
1%
das cidades têm limites mais estreitos que 50 pontos para o voto em Lula dos eleitores de 60 anos ou mais

A estimativa (King, 1997)

Dentro dos limites, usamos o modelo de King: em cada urna, a fração do grupo e a do resto do eleitorado que votaram em Lula vêm de uma mesma distribuição normal bivariada, truncada ao quadrado [0, 1]², estimada por máxima verossimilhança com as urnas da cidade (ou do estado, para o total do Brasil). Cada urna tem uma reta de combinações possíveis (a “tomografia”); a estimativa da urna é a média dessa distribuição ao longo da sua reta, que respeita os limites e soma exatamente os votos da urna. O mesmo vale para Flavio; a parcela de Lula nos votos válidos do grupo é Lula ÷ (Lula + Flavio).

A hipótese central: dentro da cidade, o voto de um grupo não depende de quão numeroso o grupo é na urna (sem viés de agregação). Se os diplomados de bairros com muitos diplomados votam diferente dos de bairros com poucos, a estimativa erra, e os dados sozinhos não avisam. O intervalo do modelo combina a incerteza dos parâmetros (covariância robusta agrupada por local de votação) com a dispersão de cada urna ao longo de sua reta. Esse intervalo é otimista: na página, ele é alargado pelo erro medido na seção 6 e cortado pelos limites. Se a faixa final passa de 30 pontos, a página não mostra estimativa, só os limites. E a estimativa só aparece para os grupos e tamanhos de cidade em que o método acertou mais do que o palpite simples (“o grupo vota como a cidade inteira”) no teste da seção 6.

No Brasil, somando os estados: Lula teve de 38% a 55% dos votos válidos de quem tem 60 anos ou mais (estimativa; no resto do eleitorado, cerca de 53%). Para os diplomados, a faixa vai de 7% a 43%: larga demais, e de um método reprovado no teste, então não a usamos.

Resultado: a estimativa aparece em 0% das cidades analisadas para os diplomados e em 39% para quem tem 60 anos ou mais.

6. Validação: quanto erramos onde dá para medir

Para o voto não existe resposta certa para conferir. Para o comparecimento existe: o TSE publica quantos inscritos de cada escolaridade e idade foram votar em cada cidade. Aplicamos exatamente o mesmo método ao comparecimento e comparamos. A referência é o 1º turno (o arquivo do 2º ainda não saiu), corrigida pela mudança do comparecimento geral da cidade entre os turnos.

Superior completo: comparecimento
18,0 pontos de erro médio
  • Viés médio: −15,6 pontos · erro quadrático: 24,6
  • Supor que o grupo vota como a cidade erra 9,2 pontos em média
  • O intervalo do modelo, sem alargar, cobre a verdade em 65% das cidades (deveria ser 95%)
  • A verdade fica dentro dos limites em 100% das cidades
30+ urnas (986)22,8
60+ urnas (996)16,6
150+ urnas (427)13,4
500+ urnas (131)8,3
Erro médio, em pontos, por tamanho da cidade
60 anos ou mais: comparecimento
8,4 pontos de erro médio
  • Viés médio: +6,1 pontos · erro quadrático: 10,5
  • Supor que o grupo vota como a cidade erra 8,7 pontos em média
  • O intervalo do modelo, sem alargar, cobre a verdade em 58% das cidades (deveria ser 95%)
  • A verdade fica dentro dos limites em 100% das cidades
30+ urnas (986)9,4
60+ urnas (996)8,3
150+ urnas (427)7,0
500+ urnas (131)4,7
Erro médio, em pontos, por tamanho da cidade

O que isso ensina: para os diplomados, o modelo de King erra mais do que o palpite simples em todos os tamanhos de cidade, e erra para o mesmo lado (subestima o comparecimento deles): é o viés de agregação em ação. Por isso a página não mostra estimativa do voto dos diplomados em nenhuma cidade, só os limites. Para quem tem 60 anos ou mais, o modelo vence o palpite simples a partir de 60 urnas, e a vantagem cresce com o tamanho da cidade; ali a estimativa aparece, com a faixa alargada pelo erro medido. Supomos que o erro no voto é parecido com o erro no comparecimento; não há como verificar isso diretamente.

No total do Brasil, a estimativa do comparecimento dos diplomados foi 87,3%, contra 88,3% medidos; dos eleitores de 60 anos ou mais, 76,4% contra 72,3%.

Outra checagem: o modelo das urnas com os cinco traços, somado cidade a cidade, erra o resultado de Lula em 13,3 pontos por cidade, em média (10,8 ponderando pelos votos), e explica 26% da variação entre cidades. Ou seja: o perfil explica parte do voto; o lugar explica muito do resto.

Calibração dos intervalos das cidades: em 629 cidades, embaralhamos o perfil entre os locais de votação (o que destrói qualquer relação real) e refizemos tudo. Os intervalos excluíram o zero em 5,2% dos casos para a diferença entre décimos e em 8,9% para a inclinação. Um método bem calibrado ficaria perto de 5%.

7. O que estes números não dizem

8. Como citar

Apuração (2026). Perfil do eleitorado e voto no 2º turno de 2026, urna por urna. apuracaovivo.com.br/metodologia/eleitorado, a partir de dados abertos do TSE. Código: scripts/electorate/stats.py. Referências: Duncan, O. D. e Davis, B. (1953), “An alternative to ecological correlation”, American Sociological Review 18; King, G. (1997), A Solution to the Ecological Inference Problem, Princeton University Press; Robinson, W. S. (1950), “Ecological correlations and the behavior of individuals”, American Sociological Review 15.

Para ver os gráficos, escolha uma cidade em Resultado por estado e cidade. Para as eleições desde 2002, veja a metodologia das eleições.